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Sob pressão climática, Amazônia muda sua estratégia para sobreviver à seca, indica estudo


Pesquisa combinou medições em campo de milhares de árvores com 40 anos de dados de imagens de satélite em nove países. Foto: Geraldo W. Fernandes
Pesquisa combinou medições em campo de milhares de árvores com 40 anos de dados de imagens de satélite em nove países. Foto: Geraldo W. Fernandes

Um estudo liderado por cientistas da Universidade de Oxford, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI) revela que a Floresta Amazônica vem mudando seu funcionamento nas últimas quatro décadas. A pesquisa, publicada nesta quarta-feira (4/2), indica que a vegetação está se tornando mais tolerante à seca como resposta direta ao aumento do calor e da escassez de água. Ao revelar esses sinais precoces de transformação, a ciência ajuda a antecipar riscos e orientar ações de conservação para evitar perdas irreversíveis na maior floresta tropical do planeta.


As mudanças são mais evidentes no sul e no leste da Amazônia, regiões historicamente mais castigadas pelo estresse climático recente. Nessas áreas específicas da bacia, a floresta apresenta hoje um comportamento mais estável durante a estação seca quando observado por sensores de satélites. Esse padrão está associado a plantas com folhas mais “duras” e resistentes, características típicas de vegetação adaptada a ambientes áridos. Em escala continental, a variabilidade do sinal de satélite caiu cerca de 10 pontos percentuais entre 1984 e 2022.


Riscos da adaptação e metodologia de pesquisa


Embora essa adaptação possa aumentar a resistência à falta de água, ela gera custos como menor produtividade e redução na absorção de carbono, importante para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Além disso, essas transformações no funcionamento das plantas e da floresta podem elevar o risco de incêndios em regiões vulneráveis. “Identificamos um sinal claro de mudança funcional da floresta que pode servir como um alerta precoce sobre a perda de resiliência frente às mudanças climáticas”, afirma Milton Barbosa, autor correspondente do estudo. A análise prova que o impacto vai além do desmatamento.


A pesquisa combinou medições em campo de milhares de árvores com 40 anos de dados de imagens de satélite em nove países. Essa integração de dados transformou observações históricas da Terra em uma ferramenta poderosa para monitorar riscos e adaptações emergentes. “Ao integrar dados de campo e satélites, transformamos observações históricas em uma ferramenta poderosa para monitorar riscos e adaptações emergentes na Amazônia”, explica Geraldo Wilson Fernandes, coautor. O método detectou sinais sutis que indicam que o estresse já está gravado na floresta.

Fotos: Geraldo W. Fernandes

Impactos na biodiversidade e segurança humana


Os autores ressaltam que os resultados não indicam uma conversão imediata da Amazônia em paisagem aberta, mas o sinal de alerta é preocupante. Essas mudanças afetam toda a teia de vida, desde insetos e aves até grandes mamíferos que dependem do equilíbrio do ecossistema. Como os seres humanos fazem parte dessa rede, a estabilidade do clima e a disponibilidade de água estão diretamente ligadas à integridade da floresta. A ciência busca transformar esses alertas em conhecimento para orientar políticas públicas.


A produção de alimentos e a segurança das populações dependem de decisões informadas e de uma conservação efetiva baseada em evidências. O estudo reforça que ainda há tempo para agir, mas isso exige monitoramento contínuo e ações de mitigação urgentes. A preservação da biodiversidade amazônica é essencial para evitar que esses sinais iniciais evoluam para transformações funcionais irreversíveis, que acabam influenciando também grande parte do Brasil e da America do Sul. Estratégias de conservação devem ser priorizadas para garantir que a floresta continue exercendo seu papel vital no equilíbrio global.

 
 
 

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