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Mineração na Serra do Espinhaço ameaça abastecimento de água, produção de energia e biodiversidade, revelam pesquisadores


Serra do Espinhaço é responsável pelo abastecimento de quase 50 milhões de pessoas, mas áreas de mineração colocam em risco esse serviço essencial. Foto: reprodução/Instituto Estadual de Florestas
Serra do Espinhaço é responsável pelo abastecimento de quase 50 milhões de pessoas, mas áreas de mineração colocam em risco esse serviço essencial. Foto: reprodução/Instituto Estadual de Florestas

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) revela que a expansão descontrolada da mineração na Serra do Espinhaço ameaça diretamente serviços ecossistêmicos essenciais. O estudo científico, que contou com a participação do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI) e do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), aponta que projetos em estágio avançado ou em planejamento visam áreas estratégicas para a conservação ambiental.


O alerta destaca a necessidade urgente de ações para proteger essa riqueza natural e garantir a segurança hídrica e alimentar de uma vasta região brasileira. O foco recai sobre processos que sustentam a vida, como o rendimento hídrico, o controle da erosão pela vegetação e o estoque de carbono. A pesquisa incluiu ainda um levantamento detalhado de 639 espécies ameaçadas, abrangendo vertebrados terrestres e plantas.


Impactos na biodiversidade e riscos socioambientais


A proteção dessa cadeia de montanhas, a segunda maior da América do Sul, depois dos Andes, reflete positivamente milhares de quilômetros além de seu território, pois nela nascem rios que abastecem cerca de 50 milhões de pessoas. No entanto, a sobreposição de projetos minerários a áreas insubstituíveis gera preocupação sobre impactos de longo prazo que podem comprometer serviços naturais essenciais para as cidades e para a população em geral. Vale destacar que, recentemente, o Brasil registrou desastres graves, como os de Mariana e Brumadinho, que reforçam os riscos dessa expansão.


O controle da erosão é um dos serviços mais ameaçados, com os projetos existentes apresentando um potencial de impacto quase duas vezes maior do que o esperado para sua área. A vegetação nativa da região é fundamental para segurar o sedimento e evitar o assoreamento de rios. Contudo, mais de 50% dos projetos minerários estão localizados em áreas cruciais para essa retenção. A remoção dessa cobertura pode elevar a turbidez da água e transportar poluentes como metais pesados por quilômetros corrente abaixo, afetando a vida aquática e a saúde das comunidades.


A Serra do Espinhaço, que abriga espécies únicas em seus campos rupestres, sofre hoje uma pressão crescente. O estudo afirma que a avaliação desses serviços ecossistêmicos é chave para um planejamento minerário responsável. A análise identificou 1.360 projetos em estágio avançado e 2.308 em planejamento em uma região que abrange 140 mil km², entre Minas Gerais e Bahia.


No que diz respeito à regulação climática, o estudo alerta que o impacto sobre o carbono é frequentemente subestimado por não considerar os enormes estoques armazenados abaixo do solo, como raízes e extensas turfeiras. Em ecossistemas de campo rupestre e savanas, a biomassa subterrânea é onde se concentra a maior parte do carbono. Atualmente, 71% dos projetos existentes ocupam áreas com capacidades de estoque de carbono acima do que seria esperado para o seu tamanho.


Áreas estratégicas sob pressão produtiva


As áreas cobiçadas pelo setor podem concentrar quase três vezes mais água e biodiversidade do que o esperado para sua extensão territorial. Mais de 56% dos projetos existentes e 46% dos planejados estão em áreas críticas para serviços ecossistêmicos. Além disso, 30 espécies ameaçadas têm mais de 30% de suas áreas de distribuição afetadas, com destaque para plantas como a L. horizontalis e morcegos como o Natalus macrourus.


A distribuição desses projetos coincide com áreas de alta produtividade ambiental: as zonas visadas pela mineração atual fornecem quase três vezes mais rendimento hídrico do que a média da região. Esse padrão de sobreposição com áreas insubstituíveis para os serviços naturais sugere que a expansão mineral está avançando justamente sobre os motores que garantem a segurança hídrica e a resiliência ecológica do sudeste e nordeste brasileiro.


Esses dados oferecem subsídios para que o poder público e o setor privado equilibrem desenvolvimento econômico e conservação. A metodologia do estudo também auxilia empresas a definirem locais de menor impacto para alguns projetos, como áreas já desmatadas ou pastagens, e áreas para compensação ambiental.


Por fim, o estudo ressalta que o cidadão deve entender que impactos ambientais distantes afetam diretamente sua qualidade de vida. A água utilizada para irrigação, consumo e higiene pessoal depende de ecossistemas saudáveis para alcançar as necessidades da população. A conscientização dos tomadores de decisão é fundamental para que áreas cruciais para os recursos hídricos não sejam sacrificadas sem um planejamento rigoroso que garanta o equilíbrio ambiental.

 
 
 
centro de conhecimento em biodiversidade
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