Recuperação natural das montanhas de canga após mineração pode levar milênios, indica estudo
- Elias Fernandes e Daniel Negreiros
- há 30 minutos
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Deixar a natureza se recuperar sozinha após a mineração não funciona no campo rupestre ferruginoso, ecossistema conhecido como canga. Um estudo publicado na revista Ecological Management & Restoration mostrou que, em Mariana (MG), áreas de canga abandonadas após a mineração continuam ecologicamente degradadas: mesmo após séculos de regeneração natural, elas não recuperaram sua biodiversidade nem o funcionamento característico do ecossistema.
Para chegar a essa conclusão, a pesquisa comparou áreas preservadas, chamadas de referência, com duas minas desativadas, uma há 50 anos e outra há mais de 300 anos. O trabalho conduzido por pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e de outras instituições prova que a regeneração passiva falha em trazer a biodiversidade de volta, quebrando o mito de que o tempo cura tudo.
De forma categórica, os autores do estudo reforçam no artigo que “a recuperação passiva no campo rupestre é insuficiente, mesmo em escalas seculares, comprometendo o retorno da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos essenciais para milhões de pessoas”. O alerta mostra que o dano ecológico crônico afeta diretamente o abastecimento de água, as paisagens e o bem-estar humano.
O peso da história e o solo devastado
Essa vulnerabilidade se explica pelo fato de que esse ecossistema de altitude se desenvolve sobre solos rasos, pobres em nutrientes e ricos em metais, o que gera uma flora altamente especializada. Quando a camada superficial do solo é removida, seja lá qual atividade for, elas eliminam não apenas a vegetação visível, mas destroem as sementes e os microrganismos contidos no solo e as complexas estruturas subterrâneas de rebrotamento das plantas. Uma grande parte das espécies características de plantas que habitam esse ecossistema se regeneram após algum distúrbio, principalmente pelo rebrotamento.
A área abandonada há três séculos remonta ao ciclo do ouro no Brasil Colônia, caracterizado por escavações que “descascaram” a paisagem. Já o local de 50 anos sofreu com a extração mais localizada de pedras ornamentais na microrregião de Passagem, na divisa de Mariana com Ouro Preto (MG).
A área degradada há 300 anos apresentou um cenário muito negativo em termos da biodiversidade, com apenas 20 espécies registradas, contra 29 do local abandonado há 50 anos. Além disso, as poucas plantas sobreviventes na mina tricentenária são “anãs”, exibindo diâmetros de caule e tamanho significativamente reduzidos devido ao estresse crônico do solo.
A armadilha do solo e as metas de restauração
Essa discrepância fica ainda mais evidente quando cruzada com as análises do solo, que revelaram outro mistério; após 300 anos, a terra na mina antiga até recuperou parte de suas características químicas originais, mas a vegetação nativa continuou sem retornar. Por isso, a restauração do campo rupestre exige ações ativas baseadas em ciência e ecossistemas preservados de referência, que mostram como reconstruir a estrutura original. Aos olhos do público, um ambiente verde pode parecer saudável. Cientificamente, porém, ele pode continuar profundamente degradado, incapaz de sustentar a biodiversidade e os processos ecológicos que caracterizam o campo rupestre ferruginoso.
O estudo alerta que os planos de recuperação pós-mineração precisam ir além da mera coleta de dados e focar em manejo adaptativo. Os cientistas recomendam intervenções ativas para reestruturar as condições físicas do substrato minerado e ampliar a oferta de propágulos, como sementes e mudas produzidas por espécies da própria região.
Nesse processo de reconstrução, contudo, uma das maiores armadilhas no manejo do campo rupestre é a tentativa de corrigir quimicamente o solo com calcário ou fertilizantes. Por serem plantas adaptadas a ambientes adversos e pobres em nutrientes, as espécies nativas perdem espaço para plantas exóticas invasoras e ruderais quando o solo é enriquecido artificialmente.
Por conta disso, os pesquisadores reforçam que intervenções agressivas na química da terra destroem a lógica ecológica local, lembrando que “manter as condições originais do solo é essencial tanto para o desempenho das plantas nativas quanto para evitar o estabelecimento de espécies invasoras”. O manejo inteligente, portanto, deve buscar preservar a pobreza mineral original, quando o assunto é a restauração destes ecossistemas extremos.

Desafios políticos e socioambientais, mas sobretudo estratégicos
O estudo vai além de estabelecer diretrizes para a restauração ecológica: ele expõe um dos maiores desafios da conservação da biodiversidade brasileira. É a primeira pesquisa a demonstrar, com evidências de longo prazo, que a regeneração natural é insuficiente para recuperar a canga após a mineração. A descoberta lança um alerta direto aos órgãos licenciadores e formuladores de políticas públicas, especialmente em Minas Gerais, onde propostas de recuperação passiva ainda são frequentemente aceitas como estratégia de compensação ambiental.
A principal mensagem da pesquisa é inequívoca: as cicatrizes deixadas na canga não desaparecem com o tempo. Mesmo após séculos, o ecossistema não recupera espontaneamente sua biodiversidade nem as funções ecológicas que sustentam a produção de água, a conservação de espécies únicas e a estabilidade ambiental. Diante da rápida perda desses ambientes estratégicos para o país, adiar decisões ou apostar em soluções de baixo custo significa ampliar um passivo ambiental que poderá persistir por gerações.
Os resultados também evidenciam que restaurar um campo rupestre ferruginoso está entre os maiores desafios da restauração ecológica no mundo. Trata-se de um processo complexo, demorado e de altíssimo custo, que exige conhecimento científico, planejamento de longo prazo e investimentos contínuos. A lição é clara: antes de autorizar a destruição desses ecossistemas, é fundamental considerar que sua recuperação poderá ser extremamente cara, tecnicamente difícil e, em muitos casos, pode demorar milênios.