Dados virtuais distorcem papel de árvores tropicais e podem prejudicar reflorestamentos, alerta estudo
- Elias Fernandes e Daniel Negreiros
- há 3 horas
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Um estudo liderado por cientistas do Centro de Conhecimento em Biodiversidade, universidades federais de Minas Gerais (UFMG), Ouro Preto (UFOP) e Espírito Santo (UFES) e Universidade de Milão, na Itália, revelou que o uso exclusivo de dados estimados por computador pode levar a erros muito graves sobre o papel de árvores tropicais na natureza. A pesquisa, publicada na revista científica Plant Ecology, acende um alerta para projetos de conservação e restauração florestal. Os autores constataram que modelos matemáticos aplicados a grandes bancos de dados globais distorcem as reais estratégias de sobrevivência das espécies.
A investigação comparou medições físicas, feitas diretamente em campo, com estimativas geradas por algoritmos que preenchem lacunas de dados. O cenário do estudo, que é derivado do projeto Biochronos, foram remanescentes de matas ripárias, ou seja, aquelas ao longo de cursos d’água, da bacia do Rio Doce, em Minas Gerais. Ao todo, os cientistas avaliaram 68 espécies arbóreas da Mata Atlântica, medindo características cruciais para a sobrevivência das plantas, como o tamanho das folhas e a densidade da madeira.
O perigo dos dados virtuais
Atualmente, ecólogos do mundo todo utilizam imensos inventários digitais para entender como as florestas respondem às mudanças climáticas no passado ou mesmo projetando um futuro. No entanto, esses arquivos globais sofrem com a falta de informações sobre espécies tropicais. Para contornar o problema, programas de computador calculam estatisticamente os números que faltam, mas o estudo mostrou que essas estimativas virtuais não refletem a realidade do ecossistema local.
Os resultados apontaram que os modelos de computador tendem a classificar as árvores como mais resistentes ao estresse e menos competitivas do que elas realmente são na vida real. Na prática, uma mesma espécie acabou recebendo duas identidades biológicas completamente diferentes, dependendo da origem do dado utilizado. Enquanto o dado medido em campo revelou plantas competitivas, o computador “desenhou” uma floresta artificialmente resistente a estresses.
O caso do Jacarandá-da-Bahia
O exemplo mais emblemático dessa distorção ocorreu com o Jacarandá-da-Bahia (Dalbergia nigra), árvore nativa da Mata Atlântica que está ameaçada de extinção. Os dados virtuais classificaram a espécie como quase totalmente tolerante ao estresse. Contudo, ao analisar as folhas reais coletadas no Rio Doce, os cientistas descobriram que o jacarandá tem, localmente, uma estratégia altamente competitiva e de crescimento rápido.
Essa diferença não é apenas teórica e tem consequências diretas para a recuperação de matas degradadas. Projetos de reflorestamento dependem dessas informações para decidir quais espécies plantar em locais específicos. Dessa maneira, se um engenheiro florestal confiar apenas nos dados simulados por computador, corre o risco de plantar uma árvore em condições ambientais totalmente inadequadas para ela, desperdiçando recursos e comprometendo o sucesso do plantio.
O vazio de dados na floresta digital
A pesquisa detalha que as características das folhas, como a área foliar, foram as que mais sofreram distorções nas mãos dos algoritmos. Isso ocorre porque as bases de dados globais tinham vazios imensos para essas espécies, exigindo que o computador estimasse entre 96% e 99% das informações foliares. Por outro lado, atributos mais estáveis e conservados ao longo da evolução, como a densidade da madeira, foram previstos com boa precisão pelos modelos computacionais.
Como explica o artigo científico, o uso sem critérios de dados virtuais pode mascarar a verdadeira biodiversidade. “Embora o preenchimento de lacunas por computador não tenha o objetivo de substituir a coleta de dados em campo, o uso indiscriminado de valores estimados em análises de diversidade funcional pode distorcer as informações reais e, consequentemente, levar a conclusões erradas”, ressaltam os autores.
Esse alerta traduz um posicionamento de equilíbrio defendido no artigo. Embora os computadores continuem sendo aliados poderosos para traçar panoramas globais, os cientistas destacam que o planejamento de ações locais e urgentes ainda depende de dados reais. Para a equipe, o sucesso da conservação e do restauro florestal depende justamente de integrar o trabalho de campo dos ecólogos às ferramentas de modelagem computacional.
Outro aspecto que chama atenção é que modelos computacionais avançados têm sido cada vez mais utilizados no preenchimento de dados e geração de modelos preditivos, mas as chances de erro são ainda enormes, o que indica a necessidade de estudos de campo e monitoramento de longo prazo para fortalecer os modelos preditivos.