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Mudanças climáticas ameaçam reduzir em 38% área para apicultura na Bacia do Rio Doce até 2050, aponta estudo

A abelha Apis mellifera. Foto: Ivar Leidus, CC BY-SA 4.0
A abelha Apis mellifera. Foto: Ivar Leidus, CC BY-SA 4.0

Uma cooperação científica entre a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e o Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI) revelou que mudanças climáticas futuras podem levar a uma redução de 38% na área climaticamente adequada para a abelha Apis mellifera na Bacia hidrográfica do Rio Doce. O estudo, intitulado “Projected Climate‐Suitable Area for Apis mellifera (Apidae) and Its Spatial Overlap With a Mining Tailings Footprint in South‐East Brazil”, analisou o impacto do aquecimento global em paralelo às áreas afetadas pelo rejeito de mineração do rompimento da barragem da Samarco, ocorrido em 2015.


Cenários para 2050


A pesquisa, assinada por Flávio Mariano Machado Mota, Débora Lima-Santos, Walisson Kenedy-Siqueira, Kamilla Ingred Castelan Vieira e Geraldo Wilson Fernandes, utilizou modelos preditivos para projetar a distribuição da abelha sob cenários climáticos otimistas e pessimistas até 2050. Como a A. mellifera é a espécie manejada mais difundida globalmente e essencial para a economia regional, o mapeamento busca apoiar a adaptação de produtores locais e da agricultura dependente da polinização.


Os resultados mostram que a proporção de área adequada para a espécie passará de 50% no cenário atual para 31% no futuro. A tendência aponta que a porção oeste e parte do centro da bacia devem se tornar quase totalmente inadequadas para a abelha.


“Apesar da plasticidade e da ampla distribuição da A. mellifera, nossos modelos projetam uma perda substancial de área”, explica Flávio Mota, autor principal do estudo. Segundo ele, essa contração está associada à sazonalidade das chuvas e à variação de temperatura, o que pode interromper a polinização de cultivos e exigir a realocação de apiários.


Área afetada pelos rejeitos de mineração do rompimento da barragem da Samarco. Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais
Área afetada pelos rejeitos de mineração do rompimento da barragem da Samarco. Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais

O fator "lama de rejeito"


O estudo também identificou que, curiosamente, dentro da área diretamente coberta pela lama de rejeito da Samarco, localizada sobretudo no leste da bacia, o modelo projeta um declínio muito menor: apenas 8% de redução. O dado indica uma estabilidade comparativamente maior nesse subconjunto restrito e altamente alterado da paisagem.


"Essa estabilidade climática no leste da bacia para uma espécie manejada, exótica e generalista como a A. mellifera deve ser tratada com muita cautela", alertam os pesquisadores. Eles explicam que a dominância de espécies exóticas pode prejudicar as abelhas nativas. Além disso, a estabilidade climática não representa recuperação ecológica, visto que os rejeitos continuam afetando a química do solo e a diversidade da vegetação.


O estudo conclui que este contraste é um resultado geográfico, onde a área de influência se encontra em relação às áreas de estabilidade projetada, e não evidência de que a lama favoreça a adequabilidade climática. A sobreposição espacial, no entanto, ajuda a priorizar o monitoramento socioeconômico da apicultura na região.


As descobertas reforçam a necessidade de ações cuidadosas de manejo. Além da recuperação da vegetação ripária, as estratégias de restauração devem promover polinizadores nativos, fornecendo recursos florais, aumentando locais de nidificação e reduzindo o uso de pesticidas. O objetivo é fortalecer os serviços de polinização e evitar que abelhas exóticas se tornem excessivamente dominantes em habitats sensíveis.

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