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Dados regionais revelam biodiversidade de formigas 7,5 vezes maior que registros globais na Cadeia do Espinhaço

A Serra do Espinhaço. Foto: Davi Vilaça
A Serra do Espinhaço. Foto: Davi Vilaça

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Centro de Conhecimento em Biodiversidade (Biodiv) alerta que depender, exclusivamente, de bancos de dados globais pode mascarar a real riqueza biológica de regiões megadiversas. Ao investigar a Cadeia do Espinhaço, pesquisadores descobriram que os registros locais superam em mais de sete vezes as informações disponíveis em plataformas internacionais.


A discrepância revela uma “biodiversidade invisível” que compromete a eficácia de estratégias de conservação em uma das principais Reservas da Biosfera da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil. Publicado na revista npj Biodiversity, o estudo revela uma falha crítica nos repositórios globais, como o GBIF (Global Biodiversity Information Facility).


Ao compararem esses dados com bases regionais, como o Atlantic Ants e dados do Projeto Ecológico de Longa Duração do Campo Rupestre da Serra do Cipó (PELD-CRSC), os cientistas constataram que a base regional reuniu 7,5 vezes mais registros de ocorrência de formigas do que os bancos globais.


A lacuna entre o global e o real


Essa distorção numérica altera, profundamente, as estimativas de riqueza de espécies por área. Enquanto os modelos alimentados por dados globais previam um teto de 52 espécies por “pixel”, ou unidade de mapeamento, a inclusão de dados regionais elevou esse número para até 153 espécies no mesmo espaço.


Segundo os autores, embora os bancos globais consigam captar tendências geográficas amplas, eles falham severamente ao estimar a riqueza absoluta da fauna local. "Isso acontece porque uma grande quantidade de dados coletados em campo acaba permanecendo restrita a planilhas locais, coleções científicas ou publicações que nunca chegam a ser integradas às plataformas de amplo acesso. Assim, os modelos conseguem enxergar 'onde’ estão os principais centros de diversidade, mas frequentemente subestimam ‘quanto’ de diversidade realmente existe nesses locais", explica Davi Vilaça, autor principal do estudo.


Armadilha de queda (‘pitfall’) utilizada na coleta de formigas na Cadeia do Espinhaço. Foto: Davi Vilaça
Armadilha de queda (‘pitfall’) utilizada na coleta de formigas na Cadeia do Espinhaço. Foto: Davi Vilaça

O sul do Espinhaço como "hotspot" e o gradiente invertido


O estudo identificou a porção sul da Cadeia do Espinhaço como o principal hotspot de diversidade de formigas. Essa riqueza está alicerçada em três fatores fundamentais:


  • Maior estabilidade térmica;

  • Índices de precipitação elevados;

  • Influência da Mata Atlântica, que atua como um reservatório histórico de linhagens adaptadas a climas úmidos.


O estudo também confirmou um fenômeno que desafia a regra geral da biologia: o gradiente latitudinal invertido. Ao contrário do padrão global, no qual a biodiversidade aumenta conforme se aproxima da linha do Equador, no Espinhaço a diversidade de formigas cresce à medida que se avança para o sul.


Impacto na conservação e a “lacuna wallaceana”


Os pesquisadores alertam que a escassez de dados, especialmente no centro e norte do Espinhaço, gera uma “lacuna wallaceana”, termo científico que designa o profundo desconhecimento sobre a real distribuição geográfica das espécies. Esse apagamento estatístico impede a identificação de áreas prioritárias para proteção e torna as previsões sobre mudanças climáticas imprecisas para ecossistemas já vulneráveis.


Como as formigas são “engenheiras do ecossistema”, atuando na dispersão de sementes e como bioindicadoras de saúde ambiental, compreender sua distribuição é vital para a resiliência da região. O trabalho ainda indica que conservar a biodiversidade brasileira exige, obrigatoriamente, a integração de coleções científicas regionais e o investimento contínuo na digitalização de acervos locais.

 
 
 

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