Plantas invasoras resistem às mudanças climáticas e ameaçam áreas impactadas pelo rejeito no Rio Doce

A interação entre as mudanças climáticas e distúrbios ambientais severos, como desastres da mineração, cria desafios inéditos para a conservação da biodiversidade. Um estudo recente investigou o futuro de espécies de plantas exóticas na Bacia do Rio Doce, área impactada pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015. Publicado na revista científica Biotropica, o trabalho avaliou se a região continuará a oferecer condições climáticas adequadas para o desenvolvimento de oito plantas invasoras até o ano de 2050.
Pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (Biodiv), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e Instituto Federal do Sul de Minas constataram que a maior parte da bacia manterá o clima favorável para essas espécies exóticas nas próximas décadas. A persistência dessas condições em áreas já degradadas pelos rejeitos de mineração pode agravar os problemas ecológicos, facilitando o estabelecimento e a disseminação dessas plantas. Consequentemente, o cenário alerta para um risco elevado e contínuo de invasões biológicas em um ecossistema que ainda tenta se recuperar da catástrofe ambiental.
O estudo aplicou modelos de nicho ecológico, uma ferramenta que projeta a distribuição de espécies baseada em condições ambientais, para entender esse fenômeno. Foram avaliadas plantas com reconhecido potencial invasor e frequentemente utilizadas para fins agrícolas, econômicos ou de restauração, mas que acabam se alastrando e ameaçando os ecossistemas nativos da Mata Atlântica e de outros biomas do país.
Entre as espécies analisadas, estão gramíneas de origem africana, amplamente utilizadas como pastagem, a exemplo da braquiária e do capim-elefante. Também foram incluídas leguminosas, como o feijão-guandu, o pega-pega e a leucena, que muitas vezes conseguem se desenvolver em solos pobres. O grupo abrangeu ainda plantas comumente cultivadas, como um híbrido de limão, a goiaba e o jambo-amarelo, todas com histórico de ocupação em áreas de preservação.
O clima de amanhã e os invasores de hoje
As projeções climáticas para o ano de 2050 consideraram dois caminhos distintos de emissão de gases de efeito estufa. O primeiro, classificado como otimista ou de emissão intermediária, prevê um aumento na temperatura global de aproximadamente 3 °C. O segundo, considerado pessimista ou de alta emissão, estima uma elevação mais drástica dos termômetros, podendo chegar a até 5 °C em relação aos níveis pré-industriais.
Ao cruzar os dados, os cientistas descobriram que, sob qualquer um dos cenários de aumento de temperatura, espécies como o feijão-guandu, o limão, a leucena, o capim-elefante e a goiaba apresentarão estabilidade, ou seja, a extensão geográfica de suas áreas climaticamente adequadas permanecerá praticamente inalterada. De modo geral, não houve detecção de redução expressiva das zonas propícias para o desenvolvimento dessas cinco plantas, indicando que o aquecimento global esperado não freará sua sobrevida na bacia.
Em contrapartida, os modelos apontaram cenários de retração para outras plantas analisadas na pesquisa. A braquiária e o pega-pega deverão sofrer reduções de suas áreas climaticamente adequadas tanto na projeção otimista quanto na pessimista. Já o jambo-amarelo apresentou expectativa de redução mais concentrada no cenário de alta elevação de temperatura, mantendo-se estável nas projeções mais amenas.
O autor principal do estudo, Flávio Mota, destaca o ineditismo desse achado. “Muitas vezes pensamos que as espécies exóticas sempre ganham, e esperávamos o mesmo para estas plantas. O surpreendente é que os resultados sugerem que algumas delas podem perder até 35% de área favorável”, explica o pesquisador. O recuo, no entanto, não é motivo de alívio: “Isso acende um alerta, porque essa perda pode ser ainda maior para as plantas nativas”.
Embora não tenha sido detectado um aumento nas áreas favoráveis em relação ao período de referência, a estabilidade projetada acende um sinal de alerta. Espécies invasoras costumam apresentar grande capacidade de se adaptar a diferentes cenários e apresentar taxas de crescimento muito rápido. Esses atributos permitem que as plantas exóticas tirem proveito das novas condições climáticas, expandindo-se agressivamente e competindo por recursos naturais valiosos com as espécies nativas da Mata Atlântica.
Capim braquiária e capim meloso, espécies invadoras. Fotos: Geraldo Fernandes
A resiliência no rastro do rejeito
O estudo avançou para entender como esse cenário climático interage com o território impactado pela mineração. Para isso, os pesquisadores sobrepuseram as previsões climáticas às áreas diretamente cobertas pelos rejeitos de minério de ferro liberados no desastre de 2015. A lama espessa e carregada de poluentes soterrou a vegetação original e alterou drasticamente a estrutura e a composição do solo na calha do rio.
A análise revelou que, dentro da área impactada, as condições climaticamente favoráveis permaneceram estáveis para a maior parte das espécies analisadas. As reduções de áreas propícias nessas localidades seguiram o mesmo padrão identificado na análise ampla da bacia, concentrando-se na braquiária, no pega-pega e no jambo-amarelo. Contudo, as áreas ainda aptas para a ocupação dessas espécies continuam significativas.
A coincidência geográfica entre o clima apropriado e o substrato degradado não indica que a lama favoreceu as plantas. No entanto, ela sugere que a degradação ambiental aliada ao clima constante gera uma janela de oportunidade perigosa. Com menos competição de espécies nativas sensíveis e um ambiente alterado, as plantas exóticas encontram menos barreiras para colonizar a região atingida pelo rompimento da barragem.
Desafios para a restauração ecológica
Diante desses achados, os pesquisadores alertam que o risco de invasões biológicas impulsionado pelo clima não deve ser negligenciado nas próximas décadas. A recuperação das áreas afetadas pelo desastre de Mariana precisará ser pensada a longo prazo e considerar não apenas as características ambientais atuais, mas as projetadas para o futuro. As estratégias precisam considerar a resiliência das invasoras aos cenários climáticos mais drásticos.
O professor Geraldo Fernandes, coordenador do projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e pela Fundação Renova, destaca que pesquisas futuras precisarão incorporar variáveis como o adensamento populacional, o uso do solo e as propriedades do terreno. Ele ressalta que o monitoramento contínuo das áreas em recuperação e a aplicação de técnicas adequadas de restauração ecológica são indispensáveis nesse processo. “Só assim será possível mitigar a proliferação dessas espécies e garantir a resiliência da vegetação nativa do Rio Doce”, alerta o pesquisador.




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