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Abelhas “comuns” dominam a paisagem devastada pelo rompimento da barragem em Mariana, revela estudo

há 38 minutos
4 min de leitura
Levantamento de campo conecta a sociedade à real e assustadora escala dos danos causados à biodiversidade. Foto: Kamilla Castelan
Levantamento de campo conecta a sociedade à real e assustadora escala dos danos causados à biodiversidade. Foto: Kamilla Castelan

O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), causou graves impactos ambientais na bacia do Rio Doce, e os efeitos do rejeito da mineração sobre os polinizadores revelaram um cenário ecologicamente complexo. Ao investigar as áreas degradadas, pesquisadores constataram que os locais inundados pelo rejeito registraram uma quantidade de abelhas superior à encontrada em matas preservadas, mas esse aumento numérico reflete um forte desequilíbrio do ecossistema.


A pesquisa, publicada na revista científica Anthropocene, foi conduzida por pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (Biodiv), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade de Oxford, Universidade de São Paulo (USP), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Instituto Nacional de Biodiversidad, do Equador, e Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). O grupo de especialistas avaliou áreas cobertas por rejeitos e locais de referência para entender os efeitos da degradação.


Durante os trabalhos de campo, as equipes de pesquisadores coletaram 10.721 indivíduos, pertencentes a 88 espécies e cinco famílias diferentes de abelhas. A média de espécies encontradas por localidade impactada foi de 14, um número estatisticamente semelhante às 12 espécies que foram registradas nas matas de referência, áreas preservadas.


Quantidade não é qualidade


Apesar de a riqueza de espécies ser estatisticamente parecida, a abundância total dos insetos chamou a atenção imediata dos pesquisadores envolvidos no projeto. Foram amostrados, em média, cerca de 197 indivíduos por ponto de coleta nas áreas que acabaram devastadas pelo rejeito de minério. Nas matas bem preservadas, esse número ficou na casa de 160 abelhas por ponto amostrado.


Dar sentido a esses números exige um olhar mais aprofundado para além da contagem bruta. “Entender a estrutura da comunidade de polinizadores, no caso as abelhas, é essencial para políticas públicas de restauração ambiental”, destaca a autora principal do estudo, Kamilla Castelan. Ela ressalta que o rigoroso levantamento de campo conecta a sociedade à real e assustadora escala dos danos causados à biodiversidade.


A partir dessa análise, os cientistas alertam que a alta abundância nas áreas afetadas está associada à predominância de abelhas classificadas como generalistas. Esses polinizadores comuns possuem uma dieta ampla, não exigem plantas específicas e têm altíssima capacidade de adaptação. Capazes de tolerar o ambiente degradado, eles dominam a região de forma oportunista e criam uma falsa impressão de saúde ecossistêmica.


Por outro lado, o desastre causou o sumiço das espécies definidas pelos biólogos como especialistas. Por terem maior especialização trófica, essas abelhas dependem vitalmente de plantas específicas para sobreviver. Como o rejeito destruiu sua fonte exata de alimento, esses insetos ficaram restritos apenas às matas preservadas, gerando enorme perda de interações ecológicas.


Equipes de pesquisadores coletaram 10.721 indivíduos, pertencentes a 88 espécies e cinco famílias diferentes de abelhas. Fotos: Kamilla Castelan

O comportamento na seca e os próximos passos


Além das mudanças na composição de espécies, outro achado profundamente contra intuitivo revelado pela pesquisa diz respeito à influência direta das estações do ano. A maior quantidade de abelhas nas áreas atingidas foi registrada justamente durante o longo período seco, contabilizando 4.165 indivíduos. Já na época chuvosa, encontrou-se apenas 1.754 abelhas nesses mesmos locais amostrados.


Castelan detalha que as rigorosas amostragens ocorreram “por método de armadilhas durante as estações secas e chuvosa” e que o exaustivo trabalho de monitoramento da fauna já avança para novas etapas. “Queremos saber se o ambiente seleciona ou exclui abelhas com determinadas características e se a presença do rejeito é uma barreira para a ocorrência de alguma espécie baseada em algum atributo funcional”, explica a pesquisadora.


Esses dados chamam a atenção porque, em ambientes tropicais, o padrão ecológico comum é que a diversidade atinja sempre o seu nível de pico no período volumoso de chuvas. A inversão observada agora sugere que a extrema falta de flores na seca força as abelhas a voarem maiores distâncias, concentrando-as nos refúgios florestais. O tempo seco também impede que os ninhos de solo acabem alagados.


Refúgios florestais e o solo


Independentemente da estação do ano, o grande e vital trunfo ecológico para a inesperada resiliência das abelhas na região devastada é a cobertura florestal remanescente. O levantamento constatou que a abundância cresce de forma diretamente proporcional à presença de fragmentos de floresta nativa conservada num raio de até 500 metros.


Funcionando como essenciais “ilhas verdes”, essas matas ciliares incrivelmente preservadas atuam como refúgios de salvação da vida silvestre no meio da paisagem severamente alterada. Elas fornecem tanto os recursos florais para alimentação contínua quanto as cavidades nas árvores adultas onde as abelhas constroem os ninhos. Sem essas matas, a recolonização regional seria um processo impossível.


Mas, se as árvores oferecem abrigo, o cenário no chão é limitante. A infeliz textura do novo solo impôs limites drásticos e muitas vezes fatais para a sobrevivência das espécies que constroem seus ninhos no solo. O rejeito depositado torna o chão da bacia extremamente compactado, o que impede o trabalho de escavação dos insetos. Já solos argilosos e sem contaminação são  capazes de os abrigar com sucesso.

Amostreagens ocorreram “por método de armadilhas durante as estações secas e chuvosa”, explica a pesquisadora Kamilla Castelan. Foto: Kamilla Castelan
Amostreagens ocorreram “por método de armadilhas durante as estações secas e chuvosa”, explica a pesquisadora Kamilla Castelan. Foto: Kamilla Castelan

Caminhos para a conservação


Diante dessa dependência dupla estrutural, a equipe do estudo propõe que a proteção dos raros remanescentes de floresta nativa se torne uma prioridade máxima de gestão. Para que o frágil ecossistema local possa se recuperar e florescer plenamente, é urgente garantir que esses fragmentos não sofram impactos adicionais, mantendo a função de pilar ecológico central.


Consequentemente, a pesquisa deixa claro que os complexos esforços futuros de recuperação ambiental na bacia do Rio Doce precisam ir muito além do simples plantio de árvores. É fundamental aplicar técnicas que consigam restaurar as propriedades físicas originais do solo, descompactando a terra endurecida pelo minério, para viabilizar definitivamente o retorno dos polinizadores.


O coordenador do estudo, professor Geraldo Fernandes, explica que a recuperação da área exige identificar não apenas a dinâmica das espécies ao longo do tempo, mas também a saúde das colônias silvestres e manejadas. A urgência de integrar esses dados aos planos de restauração do Rio Doce vai além da biologia estrita: “Essa abordagem poderá revelar não apenas os efeitos ecológicos de longo prazo do desastre, mas também seus possíveis impactos sobre a agricultura familiar e sobre os meios de vida das comunidades que dependem dos serviços de polinização”, adverte o pesquisador.

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