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Mudanças climáticas ameaçam as abelhas e colocam em risco a produção de alimentos na Bacia do Rio Doce

Foto: Yumi Oki
Foto: Yumi Oki

Um novo estudo, publicado na revista Journal of Applied Entomology, aponta que as mudanças climáticas podem reduzir em cerca de 40% a área climaticamente adequada para a abelha-europeia (Apis mellifera) na Bacia do Rio Doce até 2050, com potenciais impactos na polinização, na produção agrícola e na renda de milhares de apicultores.


Para chegar às conclusões, pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) combinaram projeções climáticas e modelos de distribuição de espécies a fim de avaliar como o aquecimento global pode alterar a ocorrência do principal polinizador manejado do mundo. O estudo focou na Bacia do Rio Doce, região que ainda enfrenta os desafios da recuperação ambiental após o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, em 2015, considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil.


Os resultados mostram que as mudanças climáticas tendem a se tornar um dos principais fatores de transformação dos serviços de polinização na região. Nos cenários futuros projetados, a área adequada para a Apis mellifera deve diminuir aproximadamente 38%, indicando que o aumento da temperatura e as alterações no regime de chuvas podem restringir significativamente as condições favoráveis à criação de abelhas e à produção de mel e própolis.


“A polinização é um processo essencial tanto para a conservação da biodiversidade quanto para a produção de alimentos. Antecipar como as mudanças climáticas afetarão as abelhas é fundamental para que produtores, comunidades e gestores públicos possam planejar estratégias de adaptação”, destacam os autores.


Análise na área atingida pelo desastre


Um resultado que chamou a atenção dos cientistas foi observado na área diretamente atingida pelos rejeitos da mineração. Nessa porção da bacia, a redução projetada da área climaticamente adequada foi de apenas 8%, indicando maior estabilidade climática em comparação com o restante da região.


Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que o dado não significa que os rejeitos da mineração tenham melhorado as condições ambientais para as abelhas. Como a abelha-europeia é uma espécie manejada, sua distribuição depende também da localização das colmeias estabelecidas pelos apicultores, o que impossibilita atribuir qualquer efeito direto do desastre sobre a adequação climática.

Foto: Yumi Oki
Foto: Yumi Oki

Restauração ecológica e foco nos polinizadores nativos


Além disso, os autores destacam que os resultados reforçam a necessidade de ampliar as estratégias de restauração ambiental, indo além do simples plantio de qualquer espécie apenas para cobrir as áreas degradadas.


Embora as abelhas manejadas desempenhem um importante papel econômico na produção de mel e na polinização agrícola, os ecossistemas naturais dependem de uma rica diversidade de polinizadores nativos. Muitas dessas espécies realizam funções ecológicas insubstituíveis e são fundamentais para a regeneração das florestas e a manutenção da biodiversidade.


Por isso, os pesquisadores defendem que os programas de restauração ecológica devem incorporar ações para aumentar a oferta de flores de espécies nativas ao longo de todo o ano, preservar locais de nidificação, reduzir o uso de pesticidas e promover maior conectividade entre os habitats naturais, fortalecendo as populações desses polinizadores.


“O sucesso da restauração não depende apenas do plantio de árvores”, afirmam os pesquisadores. “É necessário reconstruir as interações ecológicas que sustentam os ecossistemas, incluindo as redes de polinização responsáveis pela reprodução das plantas e pela manutenção da biodiversidade.”


Ciência para orientar o acordo de reparação


A constatação ganha relevância em um momento em que estão sendo definidas as estratégias de restauração das áreas degradadas ao longo de toda a Bacia do Rio Doce, no âmbito do acordo de reparação. Segundo os autores, é fundamental incorporar os novos conhecimentos científicos produzidos ao longo da última década desde o desastre.


“Somente com base nessas evidências será possível planejar ações mais eficazes e garantir o sucesso da restauração a longo prazo”, afirma o coordenador da pesquisa, professor Geraldo Fernandes, do Centro de Conhecimento em Biodiversidade e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


O estudo também recomenda que pesquisas futuras incorporem informações sobre cobertura do solo, disponibilidade de recursos florais e interações entre espécies, além de ampliar o monitoramento tanto das abelhas manejadas quanto das espécies nativas. Essas informações devem tornar mais precisas as previsões dos impactos das mudanças climáticas e orientar políticas públicas voltadas para a adaptação da agricultura, da apicultura e da restauração ambiental regional.


Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas, os resultados evidenciam que conservar os polinizadores precisa ser uma prioridade nas estratégias de adaptação climática e de recuperação ecológica da Bacia do Rio Doce. Proteger as abelhas significa, portanto, proteger a biodiversidade, a segurança alimentar e a economia regional.

 
 
 
centro de conhecimento em biodiversidade
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