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Desigualdade social dita quem consegue combater o fogo no Pantanal, revela estudo

Incêndios florestais impactam a biodiversidade e as comunidades locais. Foto: André Valle Nunes
Incêndios florestais impactam a biodiversidade e as comunidades locais. Foto: André Valle Nunes

Um estudo recém-publicado na revista científica Journal of Pyrogeography revela que a desigualdade social, e não apenas a intensidade do fogo, dita como as populações do Pantanal enfrentam os incêndios florestais. A pesquisa, realizada por pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI) e outras instituições do Brasil, Portugal, Reino Unido e Austrália,  comprova que o poder econômico determina a capacidade de resposta ao desastre, evidenciando que políticas públicas genéricas são ineficazes e precisam ser urgentemente adaptadas à realidade socioeconômica de cada comunidade local.


Desde 2019, o bioma sofre com uma série recorde de incêndios florestais agravados pelas mudanças climáticas, que impactam severamente a biodiversidade e as comunidades. Diante desse cenário de desastres cada vez mais extremos, a resposta efetiva ao fogo exige profunda coordenação. No entanto, a análise dos dados escancara um abismo entre o comportamento e a estrutura de grandes proprietários rurais e moradores de comunidades ribeirinhas.


O abismo dos recursos


Os dados do estudo mostram que o simples fato de pertencer a um grupo social com maior poder aquisitivo reduz em 67% a probabilidade de pedir ajuda a instituições formais, como o Corpo de Bombeiros e instituições de governo. Esse grupo costuma enfrentar o fogo de forma mais autônoma, enquanto comunidades tradicionais dependem fortemente do apoio governamental e de redes colaborativas formadas por vizinhos.


O acesso a equipamentos e mão de obra é o que mais determina essa independência na hora do desastre. A pesquisa calculou que cada máquina extra no local, como tratores ou caminhões-pipa, diminui em 37% a chance de os moradores chamarem o Estado. Além disso, propriedades que possuem mais de três funcionários apresentam uma probabilidade 73% menor de buscar apoio institucional.


Ameaças e percepções diferentes


A forma como o fogo é percebido também varia drasticamente entre os dois grupos, influenciando o comportamento diante da crise. O uso controlado do fogo pode ser visto como uma ferramenta vantajosa para limpar o pasto, afetando áreas que não prejudicam bens mais valiosos. Já para os ribeirinhos, as chamas são invariavelmente uma ameaça de destruição.


Essa disparidade de impacto se reflete diretamente no que cada grupo tem a perder durante a crise. O estudo detalha que, enquanto proprietários de terras lidam com queimas pontuais que raramente afetam seus bens mais valiosos, o cenário para os ribeirinhos é de ameaça às suas próprias vidas. Conforme advertem os pesquisadores, “a progressão dos incêndios nas comunidades tradicionais tende a expor valores essenciais, incluindo recursos de subsistência, fontes de abastecimento de água, moradias e outras infraestruturas vitais”.


Promoção de redes de governança mais fortes é apontada como importante fator no combate aos incêndios.

Fotos: André Valle Nunes


Investigação em um território isolado


Para mapear esse cenário, o estudo conduzido pelo pesquisador André Valle Nunes ouviu 115 pessoas, 67 proprietários rurais  e 48 moradores tradicionais, em 16 municípios do Pantanal. O levantamento em campo evidenciou um obstáculo que agrava ainda mais a crise, o extremo isolamento geográfico. As propriedades e comunidades pesquisadas ficam, em média, a duas horas de distância do centro urbano mais próximo, o que dificulta qualquer socorro rápido.


Além da questão financeira, os cientistas notaram que a independência dos proprietários de terras pode estar ligada a outros fatores comportamentais. O estudo aponta para uma possível rejeição a órgãos governamentais devido ao excesso de burocracia, experiências negativas anteriores e à crescente polarização política no país. Outro alerta é o êxodo de jovens do campo, que diminui a mão de obra ativa e enfraquece o combate precoce.


Políticas públicas e governança


Como solução prática, os pesquisadores recomendam a aplicação urgente da recém-aprovada Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (Lei 14.944/24), que distribui as responsabilidades entre Estado, sociedade e proprietários. A pesquisa também cita iniciativas de incentivo, como os programas de Pagamento por Serviços Ambientais adotados em Mato Grosso do Sul, em 2025, como essenciais para sustentar o financiamento de Brigadas Comunitárias Voluntárias.


O estudo ainda alerta que combater os incêndios modernos, que tendem a piorar, vai muito além de comprar caminhões ou equipamentos. É fundamental conectar as pessoas, como explicam os pesquisadores: “À medida que o risco de incêndios florestais aumenta sob as mudanças climáticas, promover redes de governança mais fortes pode ser tão importante quanto investir na própria infraestrutura de combate ao fogo”.

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