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Segredos da canela-de-ema: estudo revela como plantas do Cerrado desafiam o fogo e dependem de polinizadores

A canela-de-ema, espécie endêmica da Serra do Cipó. Foto: Irene Gélvez-Zúñiga
A canela-de-ema, espécie endêmica da Serra do Cipó. Foto: Irene Gélvez-Zúñiga

Um estudo publicado recentemente na revista Annals of Botany traz revelações cruciais sobre a reprodução das canelas-de-ema.  Essas plantas pertencem a um grupo de plantas conhecidas pela ciência como Vellozia.  Elas representam um grupo emblemático e como muitas espécies endêmicas do campo rupestre da Serra do Cipó, em Minas Gerais. Liderada por cientistas de dois centros de pesquisa que tentam entender os efeitos das mudanças do clima nas espécies nativas, o Centro de Conhecimento em Biodiversidade (Biodiv) e o Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), a pesquisa investigou 13 espécies de canela-de-ema ameaçadas e endêmicas.


As canelas-de-ema são fundamentais para o equilíbrio do campo rupestre, considerado verdadeiros “berçários da biodiversidade”, por lá viverem uma das floras mais espetaculares do planeta. Além de sua relevância ecológica para a manutenção de polinizadores e até segurança hídrica, essas plantas habitam o imaginário cultural da região, inspirando músicas e manifestações artísticas locais. Nesse sentido, compreender sua reprodução preenche lacunas históricas e fornece uma base científica robusta para salvar ecossistemas montanhosos vulneráveis em toda a cadeia do Espinhaço.

Foto: Irene Gélvez-Zúñiga
Foto: Irene Gélvez-Zúñiga

Estratégias de floração e o estímulo do fogo


Os pesquisadores identificaram duas táticas de sobrevivência: enquanto algumas espécies florescem intensamente por poucas semanas no verão, outras mantêm uma produção discreta durante os meses secos. Duas delas, Vellozia alata e Vellozia caruncularis, têm a floração estimulada pelo fogo. Contudo, a pesquisadora Irene Gélvez-Zúñiga, autora principal do estudo, alerta: “Embora o campo rupestre seja influenciado por regimes de fogo, a maioria desses incêndios na atualidade ocorre por ação humana”.


A análise da reprodução das canelas-de-ema revelou também que a maioria das espécies consegue gerar frutos de forma autónoma, mas a presença de polinizadores aumenta drasticamente o sucesso da planta, que se traduz na formação de frutos e sementes viáveis. Beija-flores e abelhas se mostraram indispensáveis para garantir que os frutos se desenvolvam plenamente e que as sementes germinem com vigor. A única exceção foi a espécie Vellozia taxifolia, que depende totalmente do auxílio desses animais para conseguir se reproduzir e não ser extinta.


Fotos: Irene Gélvez-Zúñiga


Câmeras no campo e o futuro da conservação


Para alcançar os resultados, a equipe realizou visitas quinzenais à Serra do Cipó entre 2023 e 2025 para analisar as flores. Eles polinizam manualmente as espécies no campo e monitoraram o desenvolvimento dos frutos e também a germinação das sementes no laboratório. O monitoramento ganhou um aliado tecnológico: filmadoras com sensores de movimento registraram as visitas de aves e insetos dia e noite, desvendando quem são os verdadeiros guardiões da espécie.


O trabalho, apoiado financeiramente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), abre caminhos para entender a resiliência dessas plantas frente às transformações globais. O próximo passo será detalhar a interferência de herbívoros e florívoros no sucesso reprodutivo. O estudo contou com apoio logístico crucial do Parque Nacional da Serra do Cipó, Reserva Vellozia, Pesquisa Ecológica de Longa Duração do Campo Rupestre da Serra do Cipó (PELD-CRSC), Cedro Têxtil e Pousada Pedra do Elefante.

 
 
 

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