Capim-braquiária ameaça nascentes e favorece erosão e incêndios na Serra do Cipó
- Elias Fernandes

- há 7 horas
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A expansão descontrolada do capim-braquiária (Urochloa decumbens) acendeu um alerta para a conservação da Serra do Cipó, em Minas Gerais. Um policy brief publicado pelo Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI) nesta quinta-feira (12/03) revela que a gramínea africana, introduzida no Brasil para a pecuária, está invadindo campos naturais e sufocando a flora endêmica da região. O documento aponta que a integridade do ecossistema e a manutenção das nascentes estão sob risco direto.
A disseminação da espécie ocorre principalmente pelas margens da rodovia MG-10 e por áreas de pastagens vizinhas. Ao avançar sobre os campos rupestres, ecossistemas raros que crescem entre rochas, o capim substitui a vegetação herbácea nativa e cria extensas manchas de vegetação exótica. Especialistas alertam que o problema é agravado pelo uso equivocado da planta em projetos de restauração ambiental.
Fogo mais intenso e falta de água
O capim-braquiária é classificado como uma espécie exótica e invasora, pois se estabelece fora de seu ambiente natural, causando danos ecológicos e econômicos. Na Serra do Cipó, ele atua como um combustível altamente inflamável, devido ao acúmulo de biomassa seca. Isso torna os incêndios florestais mais frequentes, extensos e intensos, dificultando o combate pelas brigadas.
Além do fogo, a invasão prejudica o ciclo da água e afeta diretamente as nascentes. As raízes densas e o tapete formado pelo capim alteram a infiltração da chuva no solo e o escoamento superficial. Esse processo pode aumentar a erosão e comprometer a disponibilidade hídrica local, essencial para a fauna e para as comunidades humanas.
Espécie invasora atua na Serra do Cipó como um combustível altamente inflamável, pelo acúmulo de biomassa seca.
Fotos: Geraldo W. Fernandes
O custo do combate e o papel da comunidade
Recuperar uma área já dominada por essa gramínea é um desafio financeiro e técnico considerável. Métodos de controle, como o uso de herbicidas ou a cobertura do solo com mantas plásticas, podem custar entre R$ 1.813,00 e R$ 3.578,00 por hectare. Por isso, os especialistas defendem que investir na prevenção e no controle precoce é financeiramente mais vantajoso do que arcar com a recuperação de grandes áreas dominadas.
Além disso, para conter o avanço, o policy brief sugere o engajamento direto dos moradores e proprietários rurais por meio da gestão participativa. A comunidade é peça-chave para identificar e remover novos focos antes que a planta atinja a maturidade reprodutiva. Sem uma ação coordenada, a paisagem corre o risco de sofrer uma homogeneização, perdendo sua riqueza natural para o "tapete" verde da invasora.
Diretrizes para a conservação ambiental
O documento propõe diretrizes rígidas para evitar que o problema se torne irreversível na Serra do Cipó. Entre as recomendações está a proibição do uso desse capim em obras de infraestrutura e em áreas próximas a ecossistemas sensíveis. Ademais, o monitoramento das áreas que passaram por remoção deve durar pelo menos seis anos para garantir a regeneração das espécies nativas.
A estratégia de longo prazo envolve também o zoneamento ecológico, restringindo o plantio da espécie em zonas de amortecimento de unidades de conservação. Da mesma maneira, fortalecer a governança local e investir em educação ambiental são passos fundamentais destacados pelos autores. A preservação da biodiversidade do Cipó depende, hoje, de interromper cada ciclo reprodutivo desta invasora africana.







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