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Montanhas brasileiras emitem alerta sobre lentidão na resposta às mudanças climáticas

Cordilheira do Espinhaço. Foto: reprodução/Geisy Faria
Cordilheira do Espinhaço. Foto: reprodução/Geisy Faria

As mudanças climáticas estão redesenhando as paisagens das montanhas brasileiras, mas a biodiversidade local parece não acompanhar esse ritmo. Um estudo publicado na revista científica Ecography, produzido por pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI), University of London e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), revela que a vegetação de campo rupestre na Cordilheira do Espinhaço, em Minas Gerais, exibe sinais claros de estresse após quatro décadas de aquecimento contínuo. A pesquisa alerta que, embora novos ambientes estejam surgindo devido ao aumento da aridez, as espécies enfrentam uma "inércia funcional" que compromete sua sobrevivência. 


A investigação focou em como o clima e o solo filtram as espécies, definindo a identidade de cada ambiente através das características das folhas. Essas estruturas funcionam como usinas fotovoltaicas vitais para a vida no planeta, mas possuem limitações milenares. O problema central identificado é que as plantas não conseguem mudar drasticamente sua composição e estrutura foliar para enfrentar a velocidade das transformações impostas pelo clima atual, que continua tornando-se mais quente e com a seca se tornando mais longa a cada ano.

No alto das montanhas, as plantas dos campos são exuberantes e sobrevivem mesmo sob a miséria nutricional milenar dos solos. Imagem feita com inteligência artificial
No alto das montanhas, as plantas dos campos são exuberantes e sobrevivem mesmo sob a miséria nutricional milenar dos solos. Imagem feita com inteligência artificial

Presente na cadeia do Espinhaço e em outras regiões do Brasil, como a Serra de Carajás, no sudeste do Pará, a vegetação local sobrevive sob condições que os cientistas chamam de eterna miséria hídrica e nutricional. Nestes ambientes de alta montanha, as plantas crescem em solos muito rasos, ácidos e ricos em metais pesados; contudo, operam com margens fisiológicas extremamente estreitas. Essa especialização histórica torna o ecossistema vulnerável a mudanças aceleradas no uso da terra e à escassez de água, que se tornam cada vez mais comuns e ameaçadores.


Para mapear essa resposta, pesquisadores cruzaram dados de 247 parcelas de campo com imagens dos satélites Landsat, capturadas entre 1984 e 2022. O uso de modelos estatísticos permitiu projetar retroativamente como alguns atributos das folhas das plantas evoluíram nos últimos 40 anos. O cenário encontrado é preocupante, pois sugere que os segredos da resiliência, ou capacidade de persistir no ambiente, dessas espécies podem ser eliminados antes mesmo de serem compreendidos.


O solo como filtro intransponível


Mesmo em habitats variados o solo é quem dita as regras de sobrevivência. Predominam estratégias de crescimento muito lento e uso econômico de recursos pelas plantas, já que os nutrientes são escassos e muitas vezes efêmeros. O clima influencia o desenvolvimento das plantas, mas é o solo com ferro e quartzo que impõe os limites finais de quem vive ou morre. 


Renata Maia, uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo, destaca que essa rigidez ambiental é o que define o ecossistema. “O solo funciona como um filtro que define quais formas de vida podem existir no ambiente, enquanto o clima influencia o modo como essas espécies se desenvolvem, sem, porém, alterar completamente os limites impostos pelo próprio solo”, explica.

O inesperado relaxamento funcional em dois ambientes diferentes mas que ocorrem lado a lado no alto das montanhas. Imagem feita com inteligência artificial
O inesperado relaxamento funcional em dois ambientes diferentes mas que ocorrem lado a lado no alto das montanhas. Imagem feita com inteligência artificial

Diante de um cenário de maior aridez, a expectativa era de que as comunidades vegetais se tornassem mais adaptadas à economia de recursos, com folhas menores e mais densas. No entanto, os resultados mostraram o oposto: um leve, mas contínuo, relaxamento na capacidade de responder às mudanças drásticas no clima, ou seja, um relaxamento funcional. Em média, as folhas ficaram maiores e menos densas ao longo do tempo, contrariando as projeções iniciais sobre como esse sistema responderia ao estresse climático.


Essa resposta lenta pode refletir tanto ajustes graduais nas características das plantas que já estão ali quanto uma substituição lenta de espécies ao longo do tempo. Além disso, o aumento da frequência de incêndios na região pode estar favorecendo plantas com tecidos menos densos e folhas maiores. Essas respostas ou ausência delas são preocupantes.

Imagem feita com inteligência artificial
Imagem feita com inteligência artificial

Implicações para o futuro e conservação


A sobrevivência de um dos patrimônios naturais mais singulares do globo depende agora de uma visão de conservação que vá além das espécies isoladas. Os cientistas ressaltam que proteger a variedade de solos e as condições microclimáticas é a única forma de permitir que o ecossistema absorva os novos estresses globais. A manutenção dessa heterogeneidade é o que garante a resiliência do sistema. 


O professor Geraldo Fernandes, coordenador do Centro de Conhecimento em Biodiversidade, reforça que a ciência precisa nortear as próximas decisões ambientais. “Compreender esses mecanismos é essencial para orientar políticas públicas e estratégias de manejo mais eficazes, diante da intensificação das mudanças climáticas”, conclui, apontando a urgência de proteger esse ecossistema crucial para os mais de 50 milhões de brasileiros que dele dependem para sua água, energia e alimentação.

centro de conhecimento em biodiversidade
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