Áreas úmidas da América do Sul viram “bombas-relógio” para grandes incêndios, alerta estudo
- Elias Fernandes

- há 22 horas
- 3 min de leitura
Atualizado: há 1 hora

Um novo estudo científico, publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, alerta que as principais áreas úmidas da América do Sul estão se transformando em “bombas-relógio” propensas a megaincêndios devastadores. A pesquisa revela que a combinação de secas prolongadas, ondas de calor e degradação ambiental tem alterado o equilíbrio natural de ecossistemas estratégicos do continente, elevando drasticamente o risco de queimadas fora de controle.
Com o auxílio de imagens de satélite, os pesquisadores mapearam as ecorregiões sul-americanas que registraram o maior número de focos de calor e extensão de área queimada nos últimos anos. Os dados apontam que biomas essenciais como o Pantanal e o Cerrado, no Brasil, além dos Llanos, na Colômbia e Venezuela, da Savana de Beni, na Bolívia, e do Chaco Úmido e Seco, abrangendo Argentina, Paraguai e Bolívia, estão entre os mais afetados pela escalada dos incêndios.
O paradoxo das chamas e o impacto no Pantanal
Apesar da aparente contradição de locais alagados pegarem fogo, os cientistas explicam que esses ecossistemas evoluíram com a presença do fogo e dependem dele para manter sua biodiversidade. O problema surge quando fatores humanos e climáticos, como o desmatamento, a degradação da paisagem e temperaturas extremas, quebram a dinâmica natural, acumulando massa vegetal seca no solo que serve de combustível para episódios gigantescos de queima.
Um retrato contundente dessa nova realidade ocorreu em 2020, quando grandes incêndios atingiram o Pantanal e destruíram um terço de suas áreas úmidas. Além dos prejuízos econômicos estimados em mais de 600 milhões de dólares, a tragédia ambiental provocou a morte de dezenas de milhões de animais vertebrados e possivelmente bilhões de invertebrados, evidenciando o potencial destrutivo do fenômeno.
Diante desse cenário crítico, a revisão da literatura científica realizada pelo estudo demonstra que o combate passivo às chamas durante o auge da estiagem já não é suficiente. Para conter os desastres, a comunidade científica defende uma mudança profunda na gestão dessas paisagens, priorizando o monitoramento contínuo e o manejo preventivo antes que os períodos críticos de seca se instalem.
Fotos: Fernando Goulart
Saberes tradicionais e a solução do manejo integrado
Como uma das alternativas mais eficientes, a pesquisa aponta o fortalecimento do Manejo Integrado do Fogo (MIF), alinhado ao conhecimento de comunidades tradicionais. A técnica consiste em realizar queimadas prescritas e controladas em pequenas áreas durante a estação chuvosa, o que reduz a vegetação seca acumulada e cria barreiras naturais capazes de deter o avanço descontrolado das chamas no período de seca.
A eficácia prática dessa estratégia é comprovada pela brigada do Território Indígena Kadiwéu, formada exclusivamente por indígenas em parceria com o Projeto Noleedi. Ao combinar a ciência cidadã com a experiência ancestral no uso do fogo, a iniciativa conseguiu reduzir em 50% a ocorrência de incêndios florestais dentro da reserva, tornando-se uma referência de conservação sustentável.
Liderado pelo pesquisador Fernando Goulart, do Laboratório de Ecologia Evolutiva e Biodiversidade da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e supervisionado pelo professor Geraldo Wilson Fernandes, coordenador-geral do Centro de Conhecimento em Biodiversidade, o trabalho contou com a colaboração de cientistas de diversas instituições. Ao integrar diferentes visões, os autores reforçam a necessidade urgente de uma articulação contínua entre pesquisadores, gestores públicos e movimentos sociais de vários países para trocar experiências e implementar políticas preventivas unificadas em toda a América do Sul.



Comentários