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Segundo dia do VIII Simamca debate interdependência de biomas, saúde pública e bioeconomia em Sinop

Lideranças indígenas falaram sobre territórios protegidos, saberes tradicionais e justiça socioambiental.Foto: Luana Acácio
Lideranças indígenas falaram sobre territórios protegidos, saberes tradicionais e justiça socioambiental.Foto: Luana Acácio

A urgência da conservação integrada e os impactos sistêmicos da degradação ambiental guiaram o segundo dia do VIII Simpósio da Amazônia Meridional em Ciências Ambientais (Simamca), em Sinop (MT). A programação de quinta-feira (11/6) englobou palestras e uma ampla mesa-redonda que debateram, de forma transversal, desde a qualidade do ar e a emergência de doenças até o desenvolvimento de tecnologias baseadas na biodiversidade.


Uma novidade na programação de quinta-feira foi a antecipação da mesa-redonda “Povos originários: Territórios protegidos, saberes tradicionais e justiça socioambiental”, prevista inicialmente para o sábado (13/6). O painel reuniu autoridades e lideranças para debater o tema, contando com Glenda Quirino (MCTI), Eliane Bakairi (Fepoimt), Marcelo Munduruku (Funai), o líder Yuri Kuikuro e os representantes da etnia Rikbaktsá, Cacique Darci Bazazik e Claudenor Wakmy.


Com o tema “Conexões amazônicas”, a oitava edição marca o retorno histórico do Simamca, que ocorre até este sábado (13). O encontro, que sedia paralelamente a 8ª Reunião Anual do Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Ocidental (PPBio-AmOc) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Centro de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazônica (INCT-CENBAM), reafirma o município de Sinop como um importante polo de debate e construção de conhecimento socioambiental no norte de Mato Grosso.


Stela Ferrarini, Roberta Bronzoni e Filipe Arruda, pesquisadores que palestraram durante a tarde. Fotos: Luana Acácio


Saúde, clima e o valor da floresta em pé


A emergência de doenças associada à antropização ganhou o palco com a pesquisadora Roberta Bronzoni (UFMT). Ela explicou que a Amazônia abriga grande parte dos arbovírus do mundo devido à sua rica biodiversidade. Contudo, a intensa fragmentação florestal no “Arco do Desmatamento”, iniciada com a expansão de cidades como Sinop, nos anos 1970, rompeu o equilíbrio natural e aproximou os humanos de vetores silvestres.


Segundo a pesquisadora, esse cenário de devastação acelera o “efeito de transbordo” (spillover), facilitando o salto de vírus para a nossa espécie. Em Sinop, a vigilância laboratorial já detectou a circulação silenciosa do vírus da encefalite de Saint Louis e dezenas de infecções pelo vírus Mayaro. A alta incidência urbana acende o alerta para o risco de o Mayaro estar se adaptando ao mosquito Aedes aegypti, prenunciando novas epidemias.


Ainda sob a ótica da saúde, o pesquisador Filipe Arruda (Ipam) apresentou um raio-x alarmante da qualidade do ar na Amazônia Legal. Com base em uma rede de sensores, Arruda revelou que a fumaça rouba de dois a três anos de expectativa de vida na região Norte. Em sua fala, o pesquisador afirmou que o material particulado fino atinge áreas isoladas com crueldade; na Terra Indígena Guató (MS), o ar permaneceu impróprio por 54 dias consecutivos, índice pior que o da Avenida Paulista.


Para mapear essa poluição invisível, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) adaptaram sensores autônomos movidos a energia solar. De acordo com o pesquisador, os dados, validados na Torre ATTO, revelaram que o fogo agora avança diretamente sobre a floresta em pé, não apenas nas pastagens. Diante do transporte da fumaça pelo país, Arruda criticou o foco no custeio tardio de combate e reforçou que investir em programas de prevenção é a saída mais eficiente.


A transformação da biodiversidade local em biotecnologia de ponta foi o foco da pesquisadora Stela Ferrarini (UFMT). Na área de cosméticos, Ferrarini apresentou nanossistemas que reduziram a gordura localizada em 78% durante testes clínicos. Com 80% de intenção de compra entre os voluntários, a cientista cravou: “Isso prova que temos produto, tecnologia e podemos comercializar a nossa ciência”, disse. 


Essa mesma expertise tem gerado soluções limpas para o agronegócio, defendeu a pesquisadora. Segundo ela, pesquisas comprovaram que nanossistemas com óleo de neem possuem ação sistêmica no combate à ferrugem asiática, capazes de proteger a planta de forma global. Além disso, Ferrarini falou sobre a criação de um biocarvão (biochar) a partir de resíduos de castanha-de-caju e murici, capaz de filtrar rapidamente herbicidas da água.


Geraldo Fernandes e Fabio Roque participaram de mesa redonda sobre integração de biomas. Fotos: Luana Acácio


Biomas sem fronteiras e a urgência da conservação integrada


A necessidade de repensar as políticas de conservação de forma unificada norteou a mesa-redonda “‘Biomas’ sem fronteiras”. Especialistas de diversas regiões debateram as interdependências entre a Amazônia, as águas do Cerrado e a planície do Pantanal. O painel evidenciou que a natureza, os fluxos ecológicos e os impactos ambientais não obedecem a divisas políticas e exigem uma governança verdadeiramente compartilhada.


Durante o debate, Fábio Roque (UFMS) alertou para o perigo das categorizações rígidas na legislação. Ele explicou o “efeito de transbordo”, em que leis de proteção exclusivas para a Amazônia podem acelerar a devastação do Cerrado. Ilustrando essa conectividade, o pesquisador revelou que a fumaça das queimadas no Pantanal e na floresta causa aumento direto de mortes no Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo, exigindo a reformulação do ensino e do financiamento.


Geraldo Fernandes (UFMG), por sua vez, destacou o Cerrado como o “motor hidrológico” do Brasil, fornecendo 70% da água de bacias estratégicas. O pesquisador alertou para a perda de metade do bioma e explicou sua dinâmica de “floresta invertida”. Ele criticou severamente o plantio indiscriminado de árvores em áreas de savana e advertiu que a prática destrói a biodiversidade nativa e configura crime ambiental.


Dando sequência às discussões, Leandro Battirola (INPP) evidenciou a vulnerabilidade do Pantanal, ressaltando que a sobrevivência da planície depende vitalmente da conservação das áreas mais altas. Por fim, Henrique Pereira (INPA) expandiu o debate além das divisas nacionais, destacando a urgência de fortalecer as redes de diplomacia científica na Pan-Amazônia para garantir ações integradas em todo o continente.


Pela manhã, a integração científica já havia sido fortalecida com o seminário de conexões em pesquisa e pós-graduação entre a UFMT e o INPA. As atividades no Centro de Eventos Dante Martins de Oliveira incluíram também minicursos e exposições, culminando na tradicional sessão de banners no fim do dia.

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