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Desastre de Mariana: rejeitos de mineração impõem “filtro ambiental” na bacia do Rio Doce

Restauração não deve se limitar ao simples plantio de mudas, mas focar na reconstrução das funções ecológicas que foram perdidas com a lama. Foto: arquivo/Fundação Renova
Restauração não deve se limitar ao simples plantio de mudas, mas focar na reconstrução das funções ecológicas que foram perdidas com a lama. Foto: arquivo/Fundação Renova

Dez anos após o rompimento da barragem da Samarco em Bento Rodrigues, no distrito de Mariana (MG), as florestas ribeirinhas ao longo do Rio Doce ainda apresentam sinais profundos de desequilíbrio ecológico. Um novo estudo, desenvolvido por pesquisadores do Centro de Conhecimento em Biodiversidade e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicado na revista científica Plant Ecology, revela que a deposição de rejeitos alterou drasticamente a estrutura dessa vegetação. O impacto não se limitou à perda de árvores, mas gerou uma desarticulação duradoura nas estratégias de sobrevivência das espécies e da capacidade destas florestas em se regenerar naturalmente.


O estudo analisou 168 espécies de plantas lenhosas em cinco regiões da bacia afetada. Ao comparar áreas atingidas pelo rejeito com áreas preservadas de referência, os pesquisadores observaram que o rejeito da barragem passou a atuar como um novo “filtro ambiental”.


Esse novo filtro imposto pelo rejeito eliminou aquelas espécies menos resistentes e também aquelas mais finamente especializadas no ambiente natural.  Além disso, favoreceu espécies de plantas comuns de crescimento rápido, o que reduziu drasticamente a complexidade e a qualidade do ecossistema. Assim, embora a paisagem hoje esteja verde e coberta por vegetação, a floresta deixou de funcionar como antes, e seus processos naturais ficaram comprometidos.


Transformação funcional e perda de especialistas


O estudo trouxe um novo olhar das florestas que se formaram após o rompimento da barragem ao focar no funcionamento das plantas, como o uso de recursos e a tolerância à  adversidades, em vez de apenas contar o número de espécies presentes. Os resultados mostram uma redução significativa nos tipos de espécies que contribuem de forma diferente no fornecimento de recursos florais, alimento para a fauna, fotossíntese e captura de carbono, por exemplo, indicando claramente que as funções ecológicas essenciais foram comprometidas nos novos ambientes. Por exemplo, espécies típicas de solos pobres, que cumpriam papéis específicos na natureza, foram substituídas por outras menos especializadas, simplificando a biodiversidade de forma muito preocupante.


Outro ponto alarmante destacado pelos pesquisadores é a vulnerabilidade das plantas jovens em comparação aos indivíduos adultos. Enquanto as árvores mais velhas ainda mantêm traços da estrutura anterior ao desastre, a regeneração natural foi fortemente prejudicada pelos resíduos da mineração. Essa sensibilidade das novas gerações de plantas sugere que o impacto do rompimento da barragem não é apenas um evento do passado, mas um fator que moldará negativamente o futuro das florestas por muitas décadas.


Caminhos para uma restauração eficaz


Diante desse cenário, os autores do estudo defendem que as estratégias de recuperação ambiental precisam ser urgentemente revistas. A restauração não deve se limitar ao simples plantio de mudas, mas focar na reconstrução das funções ecológicas que foram perdidas com a lama. Isso exige a seleção criteriosa de espécies nativas que se adaptem às novas condições do solo, seguindo padrões de restauração baseados em evidências científicas sólidas para garantir resultados reais.


Compreender a “memória funcional” que as florestas do Rio Doce ainda carregam é o passo fundamental para devolver a vida à região. A recuperação dos processos ecológicos é o que garante os serviços ambientais necessários tanto para a biodiversidade quanto para as comunidades humanas que dependem do rio. Dez anos depois, o estudo reforça que o caminho para a cura eficaz da bacia exige um olhar técnico profundo sobre como a natureza tenta, com dificuldade, se reconstruir. Além disso, alerta que os novos desastres de natureza similar em todo o mundo precisam destes novos olhares da ciência para entender como reconstruir os caminhos da recuperação ambiental.

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