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6 pontos-chave onde a biodiversidade pode mitigar a crise climática

Atualizado: 24 de mai.

Cientistas se uniram para propor medidas fundamentais ao combate às mudanças climáticas


Proteger o planeta das mudanças climáticas exigirá um compromisso conjunto entre tomadores de decisão, empresas e sociedade civil, não apenas dos países em ações nos seus territórios, mas também de coalizões emergentes e modelos de governança em todos os níveis. Nesse sentido, um time de renomados cientistas internacionais especialistas em biodiversidade, mudanças climáticas e sociobiodiversidade listou seis pontos-chave que contribuem significativamente para mitigar as mudanças climáticas:


1. Conservar estoques e sumidouros de carbono


Esqueça a ideia de que é preciso plantar árvores para estocar carbono! O princípio não está totalmente errado, mas o modo como esse plantio é feito pode aumentar as emissões. A substituição equivocada da vegetação nativa por plantações de árvores exóticas, como Pinus ou Eucalyptus, pode gerar efeito contrário, emitindo mais carbono do que estocando.


Isso porque grande parte do carbono é armazenada no solo e não nas árvores. O solo preservado de uma pastagem atua como um sumidouro de carbono, mas quando a vegetação é removida ou substituída pela plantação homogênea de espécies, o sumidouro de carbono pode se tornar uma fonte.


Por isso, a proteção dos estoques de carbono nativos nos ecossistemas deve ser a primeira prioridade, e não o plantio indiscriminado de florestas de monocultura. Isso contribui significativamente não só para o sequestro de carbono, mas também para a manutenção da biodiversidade nativa.


2. Restaurar adequadamente áreas degradadas


Quando a restauração é a prioridade, a maneira como ela é feita tem consequências importantes. Muitos países se comprometeram a restaurar terras degradadas, em somas que totalizam milhões de hectares até 2030. Mas a restauração exige muito mais do que plantar árvores e cobrir a terra nua com qualquer tipo de vegetação.


Em geral, os projetos de restauração têm usado um padrão para todos os tipos de ecossistemas, com pouca diversidade de espécies e sem sequer conhecer a vegetação vizinha ao local onde a restauração é realizada. Estamos criando novos ecossistemas que não atendem a um dos objetivos mais importantes da restauração: aumentar a conectividade ambiental.


Ao introduzirmos um número limitado de espécies não nativas em uma determinada região, podemos, inadvertidamente, destruir a funcionalidade ecológica do ambiente, e isso refletir na capacidade de fornecer nascentes de água, manter polinizadores para agricultura, controlar a umidade e o clima e influenciar o regime de chuvas. Somente a restauração com um conjunto diversificado de espécies nativas pode promover mais rapidamente a conectividade ambiental e restaurar os benefícios que os ecossistemas podem proporcionar aos seres humanos.


3.  Conservar fauna e flora locais de maneira integrada


Foto: Luciano Candisani

Os animais selvagens têm papel fundamental nas soluções naturais para as mudanças climáticas. Diferentemente dos animais da pecuária, responsáveis por grande parte da emissão de gases de efeito estufa, os animais selvagens sequestram carbono. Ao se alimentarem de grandes massas de material orgânico, os animais ingerem e fixam carbono em seus corpos, mais especificamente, 6,5 bilhão de toneladas por ano, ou 6,5 PgC (pentagramas de carbono).


A fauna selvagem influencia o regime de incêndios e o microclima, a polinização da agricultura, a dispersão e propagação de plantas; aumenta a complexidade das cadeias alimentares, a heterogeneidade dos habitats e os estoques de carbono. São parte essencial para adaptação às mudanças climáticas. Por isso, a conservação das florestas deve ser integrada à conservação de sua fauna, para que possamos atingir nossas metas globais para evitar o aumento da temperatura além do ideal para a sobrevivência dos seres humanos.


4. Trocar a expansão de áreas agrícolas pelo aumento de produtividade



Apesar da importância da agricultura para a subsistência humana, a expansão de áreas agrícolas está entre os principais fatores de fragmentação e perda de biodiversidade, de degradação do solo, desmatamento e emissões de carbono, gerando impactos de grandes proporções. A perda de florestas está afetando desproporcionalmente a biodiversidade em paisagens de todo o mundo.


Um melhor gerenciamento da terra em áreas de agricultura, pecuária e silvicultura poderia sequestrar mais de 13,7 bilhão de toneladas de carbono por ano. As áreas de plantações existentes no mundo são suficientes para a subsistência da população humana e não há necessidade de devastar novas áreas naturais para o cultivo. A desigualdade alimentar resulta de escolhas inadequadas de uso da terra, da concentração econômica e de barreiras de distribuição impostas por guerras e desastres naturais.


Pedimos aos formuladores de políticas públicas que não aprovem projetos de lei que permitam a descaracterização de áreas de proteção e a expansão de áreas agrícolas. Só assim, será possível desacelerar a perda de ecossistemas terrestres e aquáticos em todo o mundo.


5. Incorporar a biodiversidade aos modelos de negócios



As soluções para as crises conjuntas do clima e da biodiversidade podem estar, em parte, no setor privado. Décadas de experiência ajudaram os governos e as empresas a entenderem como incorporar as mudanças climáticas em seus modelos de negócios. Mas os incentivos econômicos para a conservação da sociobiodiversidade estão muito atrasados.


Uma análise da Fortune Global 500 mostrou que 83% das empresas têm metas relacionadas ao clima, principalmente no setor de transportes; enquanto apenas 51% das empresas reconhecem a perda de biodiversidade como preocupação, e apenas 5% estabeleceram metas quantificadas para esse tema.


As empresas e as instituições financeiras precisam definir a sustentabilidade com mais precisão em termos de conservação da biodiversidade, e é preciso oferecer incentivos para isso. O Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) está no caminho certo ao alocar recursos essenciais para a Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD). Da mesma forma, o setor privado pode aumentar o seu Impacto Líquido Positivo (NPI) - meta de gestão corporativa de biodiversidade.


6. Unir as COPs de Biodiversidade e Clima


Para atingir emissões líquidas zero propostas pela Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP), é necessário alinhar políticas e ações entre setores e escalas. Em 2021, o primeiro relatório conjunto produzido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) concluiu que o mundo deve enfrentar as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade em conjunto para que ambas as questões sejam tratadas com sucesso.


Nesse sentido, a integração das conferências ambientais aumentaria as sinergias entre os acordos ambientais multilaterais e as instituições internacionais. Isso promoveria a colaboração entre especialistas em tópicos relacionados, alinhando métodos e modelos e levando a uma melhor avaliação das compensações e interações entre diferentes tipos de impactos e políticas ambientais.


Em comum, todos os pontos-chave destacam o protagonismo da natureza para reverter as ações humanas, desde que contribuamos para isso. O artigo foi publicado nesta semana no periódico norte americano BioScience, uma das revistas científicas mais famosas e conceituadas do mundo: https://doi.org/10.1093/biosci/biae035


Jornalista responsável: Raíra Saloméa


Autores do artigo que contribuíram com essa matéria: Cássio Cardoso Pereira, Walisson Kenedy-Siqueira, Daniel Negreiros e Geraldo Wilson Fernandes (Centro de Conhecimento em Biodiversidade), Stephannie Fernandes (Florida International University) e Philip M. Fearnside (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA).


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